Sunday, December 13, 2009

KHI - II

Foi na costa de Túrio, na Itália, que Iolau reencontrou Alcibíades. Ele subiu ao seu navio implorando para falar com Artemidoro, só com ele dizia se abrir, estava nu, com seu corpo definido a vista de todos, roto e sujo, ele foi jogado de joelhos ao pé de Iolau.
Os soldados então se voltaram para o jovem espartano.
- Iolau, ele implorou por todos os deuses falar com teu general. Disse que contaria tudo o que o fez fugir se fosse para ele. Traz-nos Artemidoro aqui, já!
Iolau, assustado, viu os antigos olhos desafiadores de Alcibíades estarem realmente assustados. Seu cabelo sujo escondia toda a beleza do seu rosto, dando-lhe um aspecto de mendicante. Foi neste momento que Artemidoro saiu do quarto que utilizava na embarcação, provavelmente atraído pelo burburinho.
- Ios, o que se... Pela sagrada Hera! Alcibíades!
Iolau virou-se de súbito, e encontrou o seu antigo professor sinceramente surpreso e notou que ele já avançava para erguer o antigo amante. Iolau, prevendo o pior, interveio.
- Este ateniense deseja vê-lo, senhor!
Artemidoro deteu-se ao ouvir o tom utilizado por Iolau. E tentando demonstrar total desinteresse ordenou que os soldados o levassem para dentro de seus aposentos. A ordem foi imediantamente obedecida e os soldados o arrastaram. O jogaram no chão, no meio do aposento, e ficaram lá parados.
- Saiam! Ordenou, novamente, o professor.
Um deles tentou argumentar.
- Eu mandei que vocês saíssem.
Eles então viraram nos seus calcanhares e saíram.
Iolau continuou onde estava, sabia que a ordem não era a ele. Foi quando Artemidoro voltou-se para dentro do aposento e gritou:
- Olavo! Rápido!
Iolau sentiu um perfume de almíscar invadir a sala quando o eunuco persa entrou na sala. Ele abriu a porta do pequeno aposento, mais íntimo, em que costumava ficar confinado com o professor, e esperou o pedido de Artemidoro.
- Prepara um banho para este homem, rápido! - com uma pequena deferência, Olavo se afastou, e virando-se agora para Iolau – Teu punhal, Ios!
Foi então que Iolau estendeu sua lâmina ao professor que cortou as cordas que prendiam os fortes braços de Alcibíades a suas costas, e prendiam-lhe as pernas.
- Meu jovem amigo, o que aconteceu contigo?
Alcibíades tentou manter uma voz irônica, pretendia não emocionar-se ao falar, porém as primeiras notas revelaram o fingimento do ateniense tanto para Iolau como para Artemidoro, mas os dois não manifestaram nada sobre isso.
- Fu-fui falsamente acusado, Artemidoro! Falsamente! Sabeis que me tornei o mais jovem general de Atenas por causa de minha campanha em Mantinéia, não sabeis?
Artemidoro confirmou com um aceno de cabeça.
- Pois bem... esta expedição para conquistar a Sicília agora era minha primeira tarefa em nome do exército ateniense. Porém, meu antigo amigo, eu fui acusado em Atenas de ofender os deuses. De ofender a cidade. De ofender a democracia.
- Ios, traz-lhe vinho!
Iolau se afastou e colocou vinho e água numa cratera, mas de lá ainda podia ouvir.
- Não sei se sabeis que eu lutei para convencer meus compatriotas a avançar sobre Siracusa e tomar a Sicília, depois a Itália, muitos animaram-se que assim poderíamos chegar até a Ibéria. Lutei muito para isto, e como muitos atenienses me apoiaram, antigos generais, antigos demagogos, ficaram com medo do poder que eu estava construindo. Acusavam-me de querer tornar-me tirano.
Iolau trouxe o vinho e Alcibíades tomou um gole grande, quase esvaziando a taça de cobre, pauperriamente trabalhada, e até amassada em alguns pontos. E depois continuou seu relato.
- Bem, apesar dos discursos de Nicias, meus compatriotas concordaram com meu plano para invadir esta ilha e toma-la para nós. Contudo, a vésperas de nossa partida, todas as estátuas de Hermes foram destruídas em Atenas. Seus rostos e pênis foram arrancados.
- Deuses! Deixou escapar Iolau.
- Sim, meu jovem amigo – continuou Alcibíades, não esquecendo que Iolau estava na sala, e lançando até um sorriso em sua direção, que fez o jovem relembrar o menino que se hospedara em sua casa ao que parecia ter sido milhares de anos antes – tamanho pecado foi cometido e eu fui acusado de ser seu autor. Logo eu? Porque eu ofenderia o deus protetor dos viajantes logo às vésperas da minha primeira campanha a terras tão distantes! Não sou idiota, por Palas Athena!
E respirou fundo, ou suspirou, Iolau não conseguiu reconhecer a diferença.
- Foi oferecido a caçadores de recompensa um talento por minha cabeça, e meu nome... meu nome de minha família... foi amaldiçoado pelos sacerdotes de Elêusis e Delfos!
Ele ameaçou chorar. Um silêncio então se instalou, nenhum dos três estava confortável com a situação e Alcibíades chegou ainda a soluçar uma primeira vez quando Olavo voltou ao recinto e falou em seu grego com forte sotaque persa:
- O banho está pronto, senhor!
Iolau e Artemidoro apoiaram o jovem ateniense que caminhava com dificuldade até a tina de água quente e pétalas de rosas, além de óleo de oliva, que o esperava. Ele entrou e esticou seus músculos na água tépida. Olavo começou a massagear-lhe os músculos e esfregar-lhe a pele, enquanto Artemidoro continuou a perguntar.
- E como, amigo, chegaste até nós aqui? A última notícia que tivemos de tua marinha ela estava na parte sul desta península que costeamos, próxima a Sicília.
- Sim, e é verdade, caro amigo. Os homens que me eram leais combateram, ao meu lado, meus captores quando nós os encontramos no estreito de Messina. Meu navio afundou em Régio, e de lá, fugindo, tentei chegar até tu, meu amigo. Achei que se alguém pudesse me ajudar, me ouvir, seria tu, Artemidoro, e tu, Iolau!
Iolau se surpreendeu com a citação a seu nome. Artemidoro também não deixou de ficar surpreso. E mesmo Olavo que era sempre tão discreto, e quase invisível, não deixou de levantar seus olhos para o jovem de cabelos oleosos.
- Afinal, Iolau, somos hóspedes e amigos, não é?
- Sim! - Respondeu o outro se aproximando e apertando-lhe a mão que agora estava molhada, mas na qual hematomas e sangue coagulado se espalhavam.
- Também – continuou Alcibíades – os procurei porque quero minha vingança, Artemidoro, vou mostrar aqueles atenienses que estou vivo – e seus olhos brilharam com fúria – eu sei todos os planos de batalha para esta ilha. E agora o que eu sei, vós também podeis saber!

2 comentários:

Lidi25 11:08 AM  

Oi! Que bom que vc continua a estória dos garotos de Esparta! Está muito interessante!

Tio 9:47 PM  

Oi! Quer dizer então que a víbora sedutora chega aos Espartanos com uma proposta de traição? E depois o louco sou eu: Trair ou não trair? Eis a questão! hehehe - belo texto de qq forma.

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