KHI - V
Iolau voltou à batalha, deixando Alceu e Alcmeon para trás. Ele atravessou em passos largos o platô de Epípolas chegando à beira do penhasco, foi quando ele observou. Na planície, os navios atenienses ocupavam o porto lá embaixo, deles, dardos e setas atingiam o exército espartano que perseguiam os atenienses de volta às naus. Ele não conseguiu evitar lembrar-se dos troianos perseguindo os argivos de volta a seus barcos em Homero.
“Os troianos, estreitamente unidos, tal como flama ou tormenta, raivando seguiam Heitor Priâmeo, e bramiam e bramavam, sequiosos, seguros de apresar as naus e de matar os Dânaos”
E, como se sua voz se apoiasse nos deuses, cantou:
“Ainda que caiba culpa ao Atreide Agamêmnon, por vilipêndio do grandioso Aquiles, não é lícito desertar da luta. Sane-se o erro! Os bravos são curáveis. Não é belo ver como afrouxais o fervor de vossas forças, vós, o escol dos esquadrões. Eu não censuro gente vil, que se acovarda e escapa da luta. Ardo de ira contra vós, porém, ó tíbios adamados, que estais prestes a cometer um grande mal; que o brio e o honor vos compenetrem. Já estala a magna batalha. Em volta às naves, Heitor fortíssimo, bom de brado de combate, já peleja, rasas as portas, trunco o longo ferrolho”
Os soldados todos ouviram, espartanos e atenienses, e a batalha se empertigou ainda mais, foi quando no horizonte quatro navios espartanos apareceram, e não pareceram preocupar os atenienses, estes lutavam ainda com ávida fome pela vitória, contudo, pouco tempo depois, mais onze naus apareceram, com a bandeira coríntia exposta a proa. Atrás dos trirremes coríntios, via-se dezenas de navios persas, reconhecidos a distância pelos atenienses, e sim aí, Iolau percebeu o pavor tomando conta dos guerreiros da Ática.
Estes acuados, passaram a fugir, desesperados, para Plemírio, onde Nicias, por precaução, havia construído um forte bem mais defensável. O forte ficava na saída da baía do Grande Porto, na encosta oposta a ilha de Ortígia, porém pouco distante em um dia de marcha da cidade de Siracusa. As trirremes, no entanto, não conseguiram fugir da esquadra espartana e seus aliados coríntios e persas. Os navios atenienses foram abordados e a luta agora acontecia lá dentro, ouvia-se gritos, em grego e em persa, o som das lâminas se tocando eram trazidas pelo vento para praia, e o mar começou a trazer o sangue para tingir as pedras. Iolau observava tudo da praia, e, quando a Nige ameaçou tomar o lugar de sua filha Hêmera, ele viu a bandeira persa ser erguida no primeiro navio ateniense, alguns instantes depois dois barcos atenienses tornaram-se coríntios e um ganhou a flâmula espartana. E a noite caiu, extinguindo a batalha, mais uma vez.
Os espartanos se recolheram então para dentro dos muros que protegiam a cidade, acampando em Picolo Seno. Iolau sentou realmente exausto, junto a uma parede qualquer, depois procuraria Artemidoro, depois procuraria seus amigos, estava cansado. Foi quando outro guerreiro, coberto de sangue, sentou ao lado dele:
- Que batalha! Que batalha!
Iolau não o reconheceu por causa do cabelo empapado de sangue e terra, o rosto também coberto de pó era rajado por gotas de suor que escorriam e transformavam tudo em lama, porém a voz concedeu-lhe uma pista.
- Lutar ao lado de espartanos é assim mesmo, Alcibíades! Somos verdadeiros guerreiros.
Alcibíades sorriu e, mesmo sujo como ele estava, sua beleza resplandeceu.
- Vamos tomar um banho! Preciso! - e riu alto – E depois preciso gozar! Muito! Vamos Iolau, vinho por minha conta, e mulheres! Preciso das pernas quentes de uma mulher hoje!
Iolau se chocou.
- Estamos em guerra, Alcibíades, não é momento para vinho e muito menos para mulheres!
- Ah, é! Vós tendes uma estação para o amor das mulheres que é oposta a estação da guerra. Então que seja a bela bunda de um soldado!
Falou isso alto, sorrindo para os soldados que estavam cansados ao seu redor. Iolau notou seu olhar vasculhando e procurando algum que ele desejasse. Foi impossível não sorrir condescendente pela animação de Alcibíades, foi quando então, Heleno cruzou o portal. E Iolau notou Alcibíades congelar por um momento.
Heleno estava como todos os outros soldados. Tinha o cabelo sujo de lama e as pernas também. Usava a armadura simples de um soldado espartano, sem o elmo que perdera na batalha. A espada trazia na cintura, atada, e o escudo já estava às costas, preso. Ele reconheceu Iolau sentado e se aproximou.
- Estás bem, Ios?
- Sim, amigo! Estou! Respondeu o outro levantando-se para provar que estava bem. Alcibíades ali ao lado esperava para ser apresentado, mas, mesmo sabendo disto, Iolau manteve-o a parte na conversa.
- Tens notícias de Alceu? Perguntou Heleno.
- Separei-me dele e de Alcmeon lá no campo. Mas eles lutavam junto ao muro quando me afastei. Já devem estar aqui dentro da cidade.
- Sim! Devem! Ele e Alcmeon! Suspirou Heleno.
- Amigo...
- Oi? Interrompeu Alcibíades.
- Lembra-se de Alcibíades, não? – falou Iolau com um sorriso cínico – Ele está agora conosco! Participou com honra da batalha!
Heleno assustou-se ao reconhecer Alcibíades do seu lado.
- Tu também lembras de Heleno, não é, Alcibíades?
Alcibíades sorriu. Iolau ficou em dúvida se este sorria porque o outro o reconhecera ou porque notara o susto de Heleno ao vê-lo ali tão próximo.
Foi quando eles conversavam que Artemidoro atravessou o muro altivo e trazia dos cativos. Alcibíades os reconheceu de imediato. E os nomes escaparam-lhe entre os dentes.
- Nicías! E Demóstenes!
Vinham sem as armas e sem a armadura, nus, traziam as mãos atadas por uma corda grossa de cânhamo. Tinha o rosto baixo, humilhados. Nicías era um velho careca e de barba curta e cerrada, tinha pêlos pelo peito que um dia fora largo e uma barriga já saliente, daquelas de quem abandonara os exercícios de guerra há alguns anos para se dedicar a política. Demóstenes, no entanto, era próximo em idade, mas era um soldado, e tinha o corpo ainda cultivado pelos exercícios. Músculos fortes, barriga estreita e coxas grossas. Contudo ambos parreciam idênticos ali. Com pulsos amarrados eram puxados os dois por entre os soldados espartanos por Artemidoro. Arrancando risos dos soldados.
Artemidoro então caminhou em direção a praça central da cidade. Os soldados, sujos e cansados, não se eximiram de segui-lo. Iolau, Heleno e Alcibíades também não fugiram a esta tarefa. Na ágora, Artemidoro amarrou os dois a uma fonte e subindo numa mureta gritou para todos aqueles que estavam ali ao seu redor.
- Amigos, espartanos, estes são Nicías e Demóstenes! Os generais atenienses! Nossos prisioneiros agora! Festejem esta noite, meus amigos, homens de Esparta! Porque esta noite Atenas foi derrotada! E amanhã, aqueles homens que deixamos amarrados as naus no porto e no forte que estes dois ordenaram construir serão vossos escravos. Festejem a riqueza que Pluto envia a todos vós!!

