Tuesday, November 28, 2006

ALFA - IV

Muitos alunos tiveram seu dia diante de Artemidoro. Alguns se saíram muito bem, e outros foram derrotados de muitos modos. Um destes derrotados foi Iolau, mas ele não foi simplesmente derrotado, foi humilhado. Iolau desde o primeiro dia sempre foi o mais choroso da turma. Todos já o conheciam o bastante para saber que no mínimo ele sairia de lá chorando. Mas nenhum dos meninos esperava que fosse de tal maneira. Naquele dia em que uma suave chuva insistia em cair sobre o acampamento infantil, Iolau foi chamado por Artemidoro.
- Onde está o músico?
Iolau logo soube que era com ele. Levantou-se resignado como alguém que já conhecesse o próprio futuro, logo que se ergueu, risinhos e piadas acompanharam seu caminhar decidido em direção ao professor. Quando Iolau chegou, cabisbaixo e envergonhado das palavras que ouvira, Artemidoro ergueu seu rosto pequeno e delicado pelo queixo e olhou nos seus profundos olhos negros. Os negros olhos de Iolau já estavam marejados. Alceu conseguiu ouvir perfeitamente de onde estava as palavras do professor:
- Tens o nome de um herói heráclida, honre-o.
Artemidoro olhou em volta. Os meninos se agitaram. Todos gostariam de lutar com Iolau. Mesmo Alceu. A chuva caiu um pouco mais forte, e Artemidoro ergueu uma mão para proteger seus olhos dos gelados pingos de chuva que caíam. Os meninos consideravam aquela a melhor chance de todos de sair-se bem diante do professor. Todos sabiam que facilmente derrotariam o choroso Iolau. O que clamava por sua mãe todas as noites. Mas Artemidoro escolheu Anquises. O maior dos meninos que treinavam ali. Iolau não se conteve, as lágrimas já começaram a descer. Um soluço seu deixou-se escapar. E um menino que ouviu, logo gritou:
- Anquises, a bonequinha já chora!
Anquises ficou ainda mais confiante. Logo ele estava diante do paidonomos, armado com sua espada e escudo. E ria despudoradamente em direção a Iolau. Artemidoro se afastou. Os monitores aproximaram-se e os meninos cercaram os dois gladiadores.
- Acaba logo com isso, Anquises. Gritou um menino.
Anquises fincou suas poderosas pernas na lama. Firmando sua postura. Iolau fungou uma última vez segurando suas lágrimas e também preparou suas armas. Ele não pensava em fugir. Alceu estava bem perto nesta hora. Ficou com medo de Anquises, e agradeceu a Afrodite Espartana porque ele não fora escolhido para lutar com aquele brutamontes. Também respeitou mais Iolau a partir daquele instante, e viu que todos faziam o mesmo, porque o choroso menino estava preparado para lutar. Não fugiria. E pra surpresa de todos foi o primeiro a atacar.
Iolau foi rápido e isso surpreendeu Anquises. A espada de madeira logo vibrou nas costas do gigante. E este se irritou. Iolau fugiu e apenas ouviu os xingamentos de Anquises. Mole. Efeminado. Dado a prazeres. Descontrolado. Distante, Iolau se pôs novamente em posição de combate e logo sentiu a espada de Anquises vibrar contra seu escudo. Ele quase foi jogado pela força do ataque do menino, mas conseguiu se segurar. Ele então, apoiou-se no próprio joelho e forçou seu escudo contra Anquises, tentando desequilibrá-lo. O que não funcionou. Anquises, no entanto, conseguiu encontrar um buraco no seu flanco, e desferir um golpe na altura do seu rim, que fez com que Iolau caísse de joelhos.
Enfurecido, Anquises não esperou que ele se levantasse. Puxou-o pelos cabelos e lançou-o a lama. Gritava ele:
- Agora tu aprendes a ser homem! Agora aprendes!
Anquises forçava a cabeça de Iolau ao chão. Fazendo com que ele mal respirasse. As lágrimas quiseram irromper, mas Iolau conteve-se e alcançou uma pedra que estava no chão. Ele ergueu-a e atirou-a contra Anquises. Este fugiu a pedra, o que permitiu que Iolau se erguesse, com lama no rosto e no peplo, mas ele apenas encontrou Anquises com o pé sobre sua espada e escudo, rindo.
- N-não é justo que eu lute desarmado! Gaguejou Iolau.
Em resposta ouviu-se o riso de escárnio de Anquises que o atacou. Iolau tentou escapar, mas quando se viu acuado entre seu companheiro-de-batalha e a platéia, não pode mais fugir. Seus olhos imploravam uma espada, mas nenhum dos meninos se dignou a dar. Os poucos que tentaram foram impedidos por seus amigos. Eles riam. E Iolau sentiu a madeira vibrar em suas espáduas. Ele virou-se e ela vibrou em suas magras coxas. Quando baixou o braço para proteger mais do seu corpo, Anquises aproveitou a brecha e atacou seu rosto. Sangue escorreu. Ele não sabia de onde, mas seu rosto agora estava coberto por lama, lágrimas e sangue e ninguém parecia se importar. Foi quando um "basta" encerrou aquela balbúrdia.
Iolau reconheceu a voz de Artemidoro. Reconheceu a voz do secretário de seu professor também proferindo a sentença final.
- Anquises venceu!
Alceu ouviu as crianças gritarem. O próprio Anquises gritar com uma excitação que denunciava sua infantilidade. Ele viu as forças dos joelhos de Iolau sumirem, e ele deixar-se cair ali, em meio a chuva que continuava lavando-lhe as feridas. Iolau chorava. Soluçava. E Alceu deixou-se acompanhar com os meninos que comemoravam com Anquises, e passavam por Iolau, às vezes aproveitando para aumentar-lhe o sofrimento com um chute ou uma cuspida. Quando ele estava bem na frente, olhou para trás e viu Heleno lá sentado com Iolau. Ele limpava o rosto do menino com seu próprio peplo. Ele agora o passava no rosto sujo de lama do menino. A chuva o ajudava. Alceu teve o ímpeto de voltar, mas apenas parou e ficou observando. Era possível ver o corpo de Iolau arquejando pelos soluços. E também o olhar encantado que ele dirigia ao Heleno. Este era sério. Irascível. Seus cabelos tinham perdido o brilho dourado comum por causa da chuva que os encharcava. E ele não olhava para os olhos de Iolau, olhava para a lama no rosto dele. Alceu ainda viu Iolau ser erguido por Heleno que o levou para o acampamento. E quando eles se afastavam a chuva caía cada vez mais forte. Logo se ouviu os Irenai avisando que as aulas seriam suspensas, que todos deveriam se recolher. E assim as crianças fizeram. E a noite os soluços de Iolau estranhamente não foram mais ouvidos.

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Saturday, November 25, 2006

ALFA - III

Assim era a vida no acampamento. Todos os dias eles acordavam quando Hélios se erguia. Junto com os Irenai de Artemidoro, as crianças faziam seus exercícios até que o professor chegava e iniciava sua preleção. Escolhia alguns meninos, e os colocava para lutar. Heleno foi o primeiro desta preleção. Mas Alceu não se surpreendeu. A postura de Heleno diante das outras crianças, seus cabelos luminosos e olhos faiscantes, faziam com que ele se destacasse facilmente em meio aquelas crianças elameadas nos treinos. Artemidoro o chamou. Mediu-o com os olhos e chamou um dos Irenai que estava com uma cunha e um pedaço de madeira com um menear de cabeça. O menino que não deveria ter mais de 18 anos aproximou-se e falou algo com Heleno, Alceu não pode ouvir o que fora mais imaginou que ele perguntara seu nome, pois logo após o rapaz anotara algo.
Heleno ficou então na frente de Artemidoro, e este chamou outro menino do grupo. Tinha o mesmo corpo de Heleno, porém não a mesma energia. Os braços frouxos pelo medo não sustentavam a espada de madeira. Os olhos não encontravam o de Heleno, muito menos os do seu professor. Quando Artemidoro ordenou que batalhassem, Heleno partiu e o menino protegeu-se. Rápido largou a espada e fiou-se no escudo. Heleno parou, olhou firmemente para o menino e gritou:
- Não lutarei se estiveres desarmado. Pega tua arma!
Artemidoro esboçou um sorriso que só Alceu percebeu.
- Tresante! Algum garoto gritou.
Artemidoro então se ergueu, e os gritos que se preparavam para acompanhar o pior xingamento que se podia ouvir entre os guerreiros espartanos, "covarde", foram contidos pela figura enérgica do paidomonos. O menino de braços frouxos abaixou-se e pegou a arma. Heleno esperou ele erguer-se e posicionar-se. Apenas aí atacou. Seus músculos de menino enrijeceram-se e ele deixou a espada cair. O menino posicionou bem o seu escudo e, ao contrário do que devia, não tentou contra-atacar. Os Irenai próximos a Alceu comentaram isto, e este passou a prestar atenção. Heleno atacou novamente, e sua espada de madeira vibrou, quase quebrando contra o escudo do menino.
- Luta! Incentivou Heleno.
- Parece até um escravo de tão medroso. Gritou alguém entre os estudantes.
Notou-se uma raiva que surgiu no âmago do menino que enrijeceu-lhe as carnes. Ele então se lançou protegido pelo escudo em cima de Heleno. O escudo bateu no peito de Heleno, e abalou-lhe o equilíbrio, e antes deste recuperar-se, a espada, que o menino catara num relance, atingiu-lhe a orelha. Heleno caiu. Zonzo. Com o ouvido zumbindo. Os meninos explodiram em vivas. Alceu mesmo. Não por antipatia a Heleno, mas porque todos se identificavam mais com aquele menino medroso. Heleno ergueu-se de um pulo. E como seu peplo, sujo de pó, seu orgulho também estava manchado. Mas ele manteve-se calmo, e atacou. Largou seu escudo, e lançou-se sobre a espada do menino. Concentrava-se nela, e logo as carnes do menino fraquejaram novamente e ele não pôde mais erguer sua espada. Caiu então sentado e Heleno apontou-lhe a espada para o pescoço. E, por fim, olhou para Artemidoro. Este, comentou algo com o garoto que escrevia algo ao seu lado e este menino falou alto:
- Heleno venceu!
Vivas explodiram. Meninos correram para perto do vencedor. Todos correram. Artemidoro saiu calado, acompanhado de três adolescentes, envolvendo um deles com seu braço, aquele que se passava por seu secretário. Os meninos gritavam até que um Irenai ordenou que eles fossem à cantina, participar da phidita, sua refeição em comum. Desde este dia, Alceu só pensava no dia em que seria escolhido para lutar diante de Artemidoro. Ele não se importava em se sair mal diante de sua turma de alunos, mas em se sair bem diante de seu professor.

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Tuesday, November 21, 2006

ALFA - II

Crates então olhou atentamente os meninos. Parecia admirar a quantidade de crianças que haviam ali este ano e apontou para três dos homens que o cercavam. Um alto e moreno, e os outros dois mais baixos e loiros, mas os três tão fortes quanto Crates parecia ser. Alceu observava tão curioso que esquecera de chorar, apenas fungava de vez em quando. O mesmo acontecera a outros meninos. Crates então gritou:
- Dividiremos vocês em três enomotiai, jovens espartanos. O primeiro grupo (e caminhou entre as crianças separando as que deveriam pertencer ao primeiro grupo) terá como paidomonos Telámon.

Telámon adiantou-se. Era um homem loiro. Não muito alto. Trajava uma armadura completa, com uma capa negra que a escondia e mais um dardo nas suas costas e um espada curta, presa a cintura. Crates continuou. Tocou o ombro de várias crianças, inclusive Heleno, Alceu e o jovem choroso e indicou-lhes como professor Artemidoro, o único moreno do trio de professores que estava ao seu lado. Este usava apenas uma armadura de bronze, decorada com ferro no peito com um leão alado que parecia rugir na alma das crianças. O terceiro grupo Crates outorgou a Zetos.
Cada grupo definido, os professores ordenaram que as crianças os seguissem. Telámon e Zetos chamaram suas crianças e cada um encaminhou-se para um lado do acampamento. Artemidoro nem precisou abrir a boca. Ele desceu a colina em silêncio, Heleno o seguiu e todos os outros seguiram Heleno. Alceu manteve-se no meio do grupo, protegido do vento frio que a primavera na Hélade não detinha, e sua tristeza começava a dar lugar a uma excitação. Ele estava curioso com o que aconteceria agora. As crianças caminharam um pouco, até chegarem a um acampamento. Um mar de cabanas baixas, cobertas por peles de cabra, todas estranhamente feitas com pedaços de pinho que davam aquele acampamento um cheiro próprio. E um nome também: Pítus.
Jovens adolescentes os esperavam então. Traziam chicotes na cintura e Alceu advinhou que eram Irenais. Distribuíram-lhes escudos e espadas de madeira. Outros dois anotavam seus nomes. Ganharam também um copo e um prato, que foram avisados que não deveriam perder, pois não receberiam outro. Foram avisados que cuidassem bem das roupas que trouxeram, porque seriam as únicas que usaria durante todo aquele ano. Nesta hora, Alceu entendeu porque sua ama tinha dado a ele um manto tão grosso apesar de ser primavera, e agradeceu-lhe secretamente. E indicaram onde cada jovem deveria dormir. Pela lista que estava com outro adolescente. Cada barraca cabia duas crianças. Alceu entrou numa das primeiras. Deixou suas coisas junto à entrada, e experimentou o monte de palha que servir-lhe-ia de cama, e logo outro menino pôs a cabeça para dentro da barraca Ele tinha cachos castanhos, olhar curioso e que não conseguia parar de falar um segundo:
- Eu te conheço de algum lugar não? Você costumava sair de casa com teu pai? Eu sempre andava com meu pai, meus tios e meus irmãos!
Alceu respondeu que não. E ele se jogou em outro monte de feno. Guardou suas coisas acima da própria cabeça e continuou a tagarelar.
- Meu pai também me pagou um pedagogo ateniense. Era engraçado. Mas eu sei ler, você sabe? Ah, como é teu nome? Se quiser eu posso escrever teu nome. Mas não tem papel né? Ah, mas eu escrevo aqui no chão mesmo. Como é teu nome?
Gaguejando, Alceu respondeu.
O menino então repetiu e continuou falando.
- Escreve assim ó. – e riscou o chão de areia com o dedo - O meu nome é Clício. Escreve diferente do seu sabia? Gosto de escrever, é legal. Tem gente que diz que é meio como mágica. Meus irmãos também sabem escrever! Polinikes e Hipólito, conhece eles? Meu pai disse que é muito bom saber escrever, isso às vezes salva a vida da gente, ele disse. Meu pai.
E falou mais. Falou da família dele toda. Dos escravos de sua casa, e como brincava com os filhos dos escravos de sua mãe. E enquanto contava essas estórias, sempre pedindo a opinião de Alceu, mas esquecendo-se de ouví-las, tocou-se um clarim. Os adolescentes chamaram as crianças, dizendo que eles trouxessem sua espada e seu escudo. Todos saíram e esperaram na frente de suas cabanas, e logo seguiam os adolescentes até um espaçoso campo.
O cheiro de suor foi a primeira coisa que Alceu sentiu ao chegar. Logo seus olhos alcançaram uma vasta campina, salpicada de pedras e ladeada a direita por um denso bosque. Dali era possível ainda enxergar a sombra da acrópole da cidade e por um instante o coração de Alceu apertou de saudade de casa. Ele pensou quando retornaria a sua casa e veria novamente seus brinquedos. Mas logo ele sentiu o peso de sua espada de madeira e do seu escudo de couro de cabra. O peso de sua nova realidade. Ele reparou novamente no campo. Na grama pisada constantemente pelos meninos, um grupo de adolescente que treinava luta livre no ponto mais distante; próximo ao bosque, crianças mais velhas treinando arco-e-flecha; em outro ponto ele avistou o professor Telêmaco cuidando de seus alunos. Ele então ouviu um adolescente.
- Levantem a espada e o escudo sobre suas cabeças, e corram!
Os meninos não desobedeceram. Nenhum. E eles correram toda a tarde. Sem descanso.

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Friday, November 17, 2006

ALFA - I

Ele era uma criança. Uma jovem criança das famílias mais ricas de Esparta que, como todos de sua idade, abandonava o regaço de sua mãe e de sua família para participar de suas aulas. A partir de agora, Alceu, deixaria seus brinquedos infantis pelas armas que os guerreiros mais famosos do mundo grego portavam. Ele estava assustado. Fora arrancado de sua infância muito rapidamente. E logo estava ali, jogado em meio a outras crianças.
As crianças caminhavam, haviam se despedido de suas mães em suas casas. Apenas seus pais e seus irmãos mais velhos, alguns tios sem filhos, os acompanhavam. Muitos meninos. A frente seguia um guerreiro que impressionou muito Alceu. Era forte, tinha uma grande cicatriz na sua nuca e no crânio, podia-se ver porque sobre ela não crescia cabelos. Ele lembrou imediatamente da propriedade que seus pais tinham no campo. Uma vez
a floresta em torno da propriedade fora derrubada pelos escravos do seu pai. Ele lembrou que a cicatriz na floresta era igual a que se cravava entre os cabelos do guerreiro. Ele tentou comentar com seu pai que o acompanhava, mas este o repreendeu.
Alceu silenciou. E cravou seus olhos no guerreiro. Nas coxas poderosas que sustentavam um tronco forte e uma pesada armadura de cobre. Ele observou cada detalhe. Como as escamas eram sobrepostas uma sobre a outra. Os detalhes em ouro em forma da pavorosa Medusa que decoravam o peito do soldado. As lâminas que protegiam os flancos. Até vê-lo parar.

Alceu então lançou um olhar em torno de si. Viu um campo aberto. Cercado por cabanas de campanha. E viu pela primeira vez o lugar que seria seu lar durante os próximos sete anos. Ele ergueu os olhos lacrimosos a seu pai. Contudo este não o observava, apenas olhava para um outro grande guerreiro que se aproximava. O guerreiro que chegava bateu a mão pesada no ombro do guia, e procurou alguém na multidão. Alceu acompanhou seu olhar e acabou por encontrar uma troca de olhar carinhosa entre o recém-chegado e seu próprio pai. E finalmente ele ouviu seu pai falar:

- Este é Crates, Alceu. Companheiro do teu pai quando eu participava do Batalhão.

E Crates então falou:

- Sejam bem-vindos jovens espartanos. Sejam bem-vindos jovens e futuro de nossa cidade. Tua família e teus cueiros abandonem agora (neste instante o pai de Alceu largou-lhe a mão, o mesmo acontecia com outros pais, alguns meninos choraram, poucos tentavam demonstrar coragem e davam passos a frente, deixando seus pais para trás) e te unam a cidade que sempre será tua mais graciosa mãe: Esparta!

Todos os outros pais, tios e avós sacaram suas armas e também gritaram “Esparta”, Alceu assustou-se. Assustou-se com o metal se chocando. Assustou-se com o poderoso grito dos homens de Esparta. E olhou a sua volta. Viu outros meninos também assustados. Escondendo-se entre as pernas de seus pais. Viu outros chorando largados no chão. E conforme os pais guardava as armas e deixavam o acampamento, via também meninos tentando detê-los, sendo arrastados, pisoteados e levantando-se com lágrimas e terras no rosto. Nenhum dos garotos conseguiu conter as lágrimas. Mesmo Alceu quando viu seu pai afastar-se, não segurou grossas lágrimas que escorriam por seu rosto. Contudo apenas um menino manteve-se inabalável: Heleno.

imagem daquele garotinho de sete anos, cachos dourados caindo sobre a fronte, trajando apenas um curto peplo e uma sandAlceu ficou muito impressionado com a postura de Heleno. A imagem daquele garotinho de sete anos, cachos dourados caindo sobre a fronte, trajando apenas um curto peplo e uma sandália de couro não saíram durante muito tempo da cabeça de Alceu. E também chamou atenção de Crates, que olhou atentamente para os poderosos olhos azuis de Heleno e em seguida falou as crianças:

- Componham-se espartanos! Sejam dignos de vossos pais!

As crianças ergueram-se e todas vendo Heleno diante de Crates se alinharam a ele. Muitos choravam, mas mesmo assim ergueram-se, contudo um menino deixou-se ficar. Ele ainda gritava por seu pai e era contido pelos adolescentes que estavam presentes. Todos os meninos viraram-se para ele, e apesar de também estarem com os olhos cheios de lágrimas, encheram-se de antipatia por aquele que esperniava. Carregado, foi colocado ao lado de Alceu, e este notou então que o menino mordia o lábio para não chorar. Era magrelo e muito branco, parecia uma menina, e seu rosto estava coberto de terra de tal maneira que apenas seus olhos eram reconhecíveis. Profundos e úmidos olhos negros.

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